Protocolo de pesquisa em Meditação - HCPA: Pensar, contemplar e repousar

Metabavana

A essência desta pratica é despertar o olhar da bondade amorosa. Este passo começa pela observação da coemergência: o mundo externo não possui exatamente atributos; os atributos acontecem dentro da gente, a realidade fora apenas “ cutuca” nossas lembranças - por isso, cada um prefere um tipo de comida, de ambientes, de tipos de pessoas, de ideologia etc.. cada um tem marcas e fixações e através delas vê e lida com o mundo.

Quando algo incomoda, é o “nosso dentro” que está se sentindo incomodado; quando desejamos e nos apegamos a algo é o “nosso dentro” que está se apegando. Parece até que nossas relações são todas virtuais e solitárias. Essas relações são reais quando nos “misturamos” aos interesses dos outros. Não que a gente perca o discernimento, que certos sofrimentos não sejam justificados, que certas vitorias não sejam estimulantes; mas podemos viver com menos drama, com menos sofrimento – com mais estabilidade, conservando a energia saudável. Para isso é preciso mudar o olhar, mudar a paisagem.

É nesse ponto da motivação que surge: Metabavana: Uma das práticas mais comoventes que o budismo nos oferece. O que vemos nos seres não é o que está ali propriamente, mas sim as marcas da nossa própria mente. Metabavana altera nossa capacidade de olhar para o mundo ao redor, ela nos coloca positivos mesmo quando o outro está negativo. Não se trata de analisar se o que o outro está fazendo é negativo ou não, simplesmente aspiramos à liberação dele. Não basta apenas meditarmos, ainda que tenhamos a habilidade de shamata, quando saímos e andamos pelo mundo, as coisas vêm até nós, e nós então aspiramos à felicidade e à liberação de todos os seres.

Fazemos uma listinha de seres que encontramos regularmente e recitamos para eles. A partir dessa prática geramos mundos nos quais as relações saudáveis e lúcidas são possíveis. A partir de ambientes sutis, descobrimos novos caminhos, novos modos de tecer as relações. Focamos cada pessoa, incluindo a nós mesmos, as árvores, os bichos… “Que meu filho seja feliz e ultrapasse o sofrimento. Que encontre as causas da felicidade e ultrapasse as causas do sofrimento. Que seus automatismos se dissolvam e surja nele um olho de lucidez instantânea diante de tudo e de todos. Que ele seja capaz de gerar benefícios aos outros e encontre nisso sua fonte de energia”. “Que meu filho seja feliz”. Parece incrível, mas raramente temos essa visão. Sentimos que amamos muito nosso filho, mas geralmente aspiramos que ele “se dê bem na vida”, que nos respeite, ou algo semelhante. De modo aparentemente “natural”, surgem em nossa mente algumas – ou muitas – condições que consideramos necessárias para seu bem-estar, vitórias, conquistas, etc. E se tais condições não se manifestam, a relação desanda, a comunicação fica comprometida e a lucidez nos falta. Olhar para o próprio filho a partir de outros referenciais pode transformar por completo uma rede de relações ligadas ao passado, presente e futuro. Descobrimos que nossas necessidades de controle, e todas as negociações e estratégias de controle podem cessar. A vida fica mais simples. As relações saudáveis vão surgindo aqui e ali, e um novo tecido humano se torna possível. A prática de Metabavana, aparentemente simples, tem restaurado relações de modo surpreendente. Funciona, não porque usamos palavras mágicas, mas porque nosso olhar constrói. Revela a co-emergência operando. (pelos ensinamentos de Lama Padma Samten. Texto de Maria Helena: https://www.blogger.com/profile/16647059633420507985)